Cine Cambuí - Na Velha República

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 Cambuí nunca primou por preservar a sua história e, apesar dos inúmeros jornais que encontramos, poucos sobreviveram as primeiras edições e nenhum exemplar foi encontrado do período de 1912 a 1922. Este período, portanto, continuará pouco conhecido.

D. Maria Magalhães  recorda-se do cinema ser, em 1922,  do Dr. Carlos Cavalcanti, temido Juiz de Direito da cidade. Agora chamava-se Cinema Cambuiense, como nos mostra a propaganda no jornal "O Rebate", editado por Benjamin de Paiva. O cinema já exibia filmes de longa metragem, como o anunciado "Cinzas de Amor", "em 11 longos atos", e “Amor de Accaso”, produzido pelos estúdios da Metro. O Sr. Luiz Tavares de Toledo era o "condutor das fitas",  como nos mostra uma matéria sobre apreensão de armas, no outro jornal da Cidade, O Democrata, editado pelos srs. Hygino de Oliveira Cezar e Levindo Lambert.

Dr. Carlos Cavalcanti, um "coronel" paraibano no pior estilo do sertão nordestino, residente na cidade desde o início do século, impunha o respeito a sua pessoa pelo uso do poder que tinha nas mãos. Justiça, àquela época, somente a divina. O cinema tinha 3 camarotes. O central era de propriedade do Dr. Cavalcanti. O segundo, do farmacêutico Sidney Menezes e o terceiro de quem pagasse. A sessão não começava enquanto Cavalcanti e sua família não chegassem.

Figura odiada por muitos, senão pela maioria, o temido juiz acabou por ser assassinado em 5 de abril de 1923, quando voltava para casa com a família, após a missa. O famoso crime ocorreu em pleno dia, na Praça central da cidade. O  assassino foi o Sr. João Belisário, profissional contratado na escuridão da noite por um vulto, cuja identidade até hoje não foi descoberta.

Nesta época as crianças não se sentavam no meio dos adultos, ou melhor, criança que não pagasse não podia sentar-se nas cadeiras. Ficavam no chão, na parte da frente do cinema. Não existiam poltronas. Eram cadeiras mesmo.

Os filmes ainda eram mudos e, claro, em preto e branco. Nos cinemas mais luxuosos de cidades maiores, havia a lendária figura do pianista, que acompanhava as sessões interpretando temas musicais. Em Cambuí,o piano ficava por conta de Cornélio Lambert, mas a Lenda assume o nome de Abel Guimarães, que improvisava efeitos sonoros atrás da tela, dando uma nova dimensão a já encantadora sétima arte. Conta Levindo Lambert, em matéria escrita para o Jornal "A Montanha", de 30/01/49:

"A Projeção era feita por trás da tela, e o Abel Guimarães se incumbia de, em cada intervalo do filme, molhá-la intensamente. E é justamente por causa do Abel Guimarães, um português fino e astuto, que estou redigindo aqui, currente calamo, estas notas ligeiras. Isso, porque entendo que Abel Guimarães foi precursor do cinema falado. Ficava ele por trás da tela de martelo, bigorna e outros petrechos ruidosos e sonoros, para no momento exato, produzir o som ou o ruido que o drama ou a comédia representavam. As vezes o estampido do revólver do Abel não coincidia com o do drama, mas a valsa langorosa do Cornélio desviava a atenção dos espectadores. E tudo ia, afinal de contas, magnificamente bem lá pelos bancos compridos, que enchiam a pequena sala, toda ás escuras...

Tontolini arrancava grossas gargalhadas, e o Abel teria lançado seu nome na história, se se previsse a extensão que a técnica, a ciência e a arte dariam ao cinema moderno."

Já em 1922, havia uma vitrola a corda que animava as sessões com música. Eram sempre as mesmas, o que fazia com que as pessoas as cantarolassem. Algumas são lembradas até hoje, como "Gota de Sangue". A vitrola será o propulsor, mais tarde, do início do cinema sonoro, que consistia em um disco a ser tocado simultaneamente as partes do filme. O sistema será chamado de Vitafone.

Com a morte do Dr. Cavalcanti, assumem o cinema os senhores Toniquinho Lambert e Antônio Salles.

Alguns dos fatos aqui relatados não tem uma data muito precisa. Faz parte do período chamado apenas de "Infância". Um garoto vestido de vermelho andava pela rua batendo bumbo e prato e anunciando o filme que iria passar. Um outro maior ia atrás carregando o cartaz. As crianças que acompanhassem o cortejo tinham o peito marcado de vermelho e não pagavam o ingresso. São lembranças de D. Maria Magalhães.

Aproximadamente em 1925, o cinema passa a ser da empresa "Bueno e Fanuchi" de David Herculano Bueno e do Joãozico Fanuchi. Como atesta a propaganda no jornal "O Progresso", de 1927, o Cambuhy Cinema funcionava aos domingos e segundas.

Segundo o Sr. Aristeu Bueno, filho do Sr. David, passava-se muitos seriados do Tom Mix, Buck Rogers e do Tom Tiller. Alguns nomes lembrados: "Casa Misteriosa", "Chuca Chuca" e Jacusi (francês), um início contido de diversificação na programação.

Eram operadores os senhores Alfredo Eugênio de Carvalho e o Sr. Lázaro do Arlindo. Este último era auxiliado por seu filho, Nenê, que mais tarde irá substituí-lo. Também trabalhou neste período o Sr. Geraldo da Geórgia. Nesta época, um filme era formado por 16 fotografias por segundo (hoje são 24) e, quando a fita rebentava, um pedaço era perdido e estes fotogramas eram vendidos para a garotada, fazendo muito sucesso. Um metro de filme continha 96 fotografias e, um pedacinho que fosse e uma caixa de sapato, fazia a festa pra muita gente.

Nesta época o cinema era plano e para diminuir este problema as poltronas tinham diversos tamanhos, tornando-se  mais altas a maneira que ficavam mais ao fundo da sala. As mais altas tinham um degrau para ajudar a pessoa a se sentar, a mais de 1 metro de altura. Era a alegria das crianças, que tinham suas pernas totalmente suspensas pela altura das poltronas. Na frente destas poltronas ficavam as cadeiras de palha.

Lembra D. Maria Magalhães que as pessoas tinham carteirinha com permanente para os seriados. Isto quase não deveria ser necessário, já que em uma cidade pequena todos se conhecem. Os lugares não eram marcados, mas todos sempre sentavam nas mesmas poltronas, perto de seus amigos.

O cinema tinha um só projetor (segundo Zezé do Dito, a manivela), o que impunha intervalos para a troca das partes. As crianças, sentadas à frente, corriam para perto de seus pais para perguntar o que diziam as legendas ou alguma coisa que não entendessem no filme.

Os seriados faziam tanto sucesso que não se programava nenhuma outra atividade na cidade no dia de sua exibição. Como as dificuldades de transporte dos filmes eram enormes, muitas vezes o filme não chegava à cidade. Por isto, convencionou-se uma batida do sino da igreja se o filme chegasse a tempo e assim todos ficavam tranqüilos com o programa da noite. 

No programa da festa de Nossa Senhora do Carmo de 1930, consta a exibição de filmes ao ar livre para os fiéis. Não temos confirmação se isto chegou a ocorrer. Com a Revolução de 30 e o fim da Velha República, Cambuí passará a ser uma cidade de fato, contando com prefeito e vereadores. De fato, a democracia ainda tardaria um pouco, mas isto é outra história.

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