|
Em 1932, após 2
anos de governo “revolucionário”, o país
ainda não tinha uma nova constituição. O
governo federal nomeou um governador que
desagradava ao estado de São Paulo e pronto:
começou a revolução de 32. De um lado,
paulistas sentindo-se prejudicados e
dizendo-se lutar pela constituição. De
outro, mineiros aliados ao governo federal
dizendo que os paulistas queriam separar-se
do Brasil. De quem era a razão? De ambos ou
talvez de ninguém. Certo mesmo é que se
começou uma guerra que colocava em lados
opostos vizinhos e amigos.
Cambuí,
por situar-se próximo a fronteira, não
escapou deste conflito surrealista. Nossa
pacata cidadezinha foi, inicialmente,
invadida por um batalhão constitucionalista.
Dias antes, chegara a cidade a notícia de um
terrível “ataque aéreo” ocorrido na cidade
de Passa Quatro.
Eram
3 horas da tarde quando “vermelhinho”
paulista fez um vôo rasante sobre nossa
praça e, 300 metros acima da igreja, deu uma
rajada de metralhadora. Foi aquele
corre-corre. Pessoas desmaiavam, corriam
gritando pelas ruas da cidade, arrumavam as
malas. Não podemos saber se eram balas de
verdade ou algum barulho que imitava a
realidade. Fato é que os paulistas, além de
dispor de pouquíssimos aviões (3 ou 4), não
tinham munição em abundância e chegaram a
inventar uma traquitana que imitava o som de
uma metralhadora somente para impor
respeito.
O resultado
foi
o esperado. Quando o caminhão do batalhão
entrou pelas ruas da cidade, com
metralhadoras na carroceria e batedores, a
população da cidade já partia para casa de
parentes na zona rural. Poucos permaneceram,
entre eles o padre Oriolo e dois coroinhas,
os irmãos Tatita e Zezito, com 15 e 18 anos
respectivamente. Estes dois, que ainda irão
participar muito de nossa história, tiraram
outra lição deste inusitado episódio e até
hoje são apaixonados por aviões como o WACO
de duas asas, vermelho, que viram pela
primeira vez naquela tarde.
Tatita,
inclusive, na primeira oportunidade foi ao
Campo de Marte em São Paulo (justamente a
morada do inimigo) acompanhado de seus
outros irmãos, Dito e Tonho do Nico, e de lá
saíram para um espetacular vôo panorâmico
sobre a cidade, às 5 horas da tarde de 8 de
março de 1933, apenas 6 meses depois. Cada
um fez o seu vôo em um avião também de duas
asas, “Neuport”, do Sr. Fritz Hoeler. Tatita
encantou-se tanto com o aparelho que, em
1945, tirou seu brevê, na 4ª. Turma de
pilotos do Aeroclube de Pouso Alegre. Mais
tarde também fundou o Aeroclube de Cambuí,
mas isso já é outra história.
Ainda
estamos em 1932 e nossa cidade estava
ocupada pelas tropas inimigas, cerca de 50
pessoas. Apesar da presença dos soldados,
tudo continuava pacífico e os fuzis ficavam
cruzados no meio da praça. O inimigo era
educado, em sua maioria estudantes de
direito, e tratavam a todos com o devido
respeito. Mesmo assim o então prefeito David
Bueno mandou um mensageiro para uma cidade
vizinha que de lá trasmitiu-lhe um
telegrama, obviamente interceptado pelo
inimigo. O telegrama informava que um grande
contingente de tropas federais estava a
caminho de nossa cidade, já encontrando-se
na vizinha Pouso Alegre. Claro que tudo era
invenção do astuto Sr. David. Em pequeno
número e com parcos recursos, o pequeno
batalhão recuou até as trincheiras que
cavaram no alto do Canguáva e de lá
retornaram a seu próprio estado. Dizem até
que um dos soldados apressou-se tanto para
chegar ao caminhão que quebrou sua perna.
Como dizia a piada: Mineiro não perde o trem
e nem a guerra.
Tempos
depois chegaram de fato os soldados
federais. O 9º. Batalhão de Infantaria
aquartelou-se em nossa cidade, sob o comando
do Te. Cel. Octávio Diniz.
As
lembranças deste período não são muito
felizes, ficando a impressão de que abusaram
um pouco de nossa costumeira hospitalidade.
Acredito que não podemos tomar por base os
incansáveis elogios feitos pelo Jornal “O
Expositor Municipal”, órgão oficial da
prefeitura de Cambuí e que, de forma alguma,
poderia criticar o comportamento das tropas
mineiras no decorrer da guerra. Mesmo assim,
podemos sentir que o jornalista era
constantemente criticado pelo que escrevia.
Um dos adjetivos usados para descrever a
digníssima tropa mineira foi: “cria-ruim”.
Tanto
que as coisas não eram exatamente como narra
o saudoso jornal é que, por ocasião da
visita do Sr. Juarez Távora, o futuro
prefeito José Nascimento, então regente da
banda, reuniu os músicos e correu para
saudá-lo. Iniciou um dobrado em frente ao
Grupo Municipal que foi drasticamente
interrompido pelo homenageado: “Pare com
isso. Estamos em guerra, não em uma festa.”
Vários
carros foram confiscados para o esforço da
guerra, inclusive a barata do Sr. Perroni,
cuja buzina era uma das alegrias das
crianças da cidade. Sabendo do confisco,
várias pessoas esconderam seus carros na
zona rural. De nada adiantou: a delegacia
tomou-os a força, como o caminhão bebê que
o sr. João Lopes escondeu na Vargem do
Paiol. Até hoje não se tem notícia do
paradeiro dos bens confiscados. Aqueles que
colaboraram, tiveram seus bens devolvidos ao
final da guerra.
O batalhão
comia diariamente no Hotel Magalhães e, como
aquela época a cidade não tinha açougue,
todos os dias dois soldados iam até a roça
para pegar frangos e leitoas para a sua
refeição e, como tudo o que pegaram, jamais
pagaram. Como diz Tatita: foram eles que
verdadeiramente tomaram a cidade de
assalto.
Passado
algum tempo – o conflito durou apenas alguns
meses – a revolução acabou sem que um único
tiro fosse dado em nossa terra, ao contrário
de outros lugares que tem histórias mais
dolorosas para contar. Tanto é que,
pesquisando a história da revolução de 32,
nada consta que tivesse acontecido nesta
região do sul de Minas. Nós sabemos que
aconteceu. Pode não ter sido muito
importante mas aconteceu conosco e isto é
importante, ao menos para nós.
Com
a rendição de São Paulo, Minas comemorou a
derrota dos “paulistas”. Os líderes
revolucionários tiveram as suas punições e,
algum tempo depois, as divergências estavam
esquecidas e todos voltaram as suas vidas,
restando apenas a dolorosa lembrança dos
mortos, de ambos os lados. Nós, felizmente,
não temos este tipo de história para contar.
(Se quiser,
clique aqui e leia a íntegra do jornal “O
Expositor Municipal” desta época.)
(Ou veja nosso album
de fotos. Clique aqui.) |