Cine Cambuí -  Revolução

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A Revolução de 30 pôs fim a política do café com leite que alternava presidentes dos estados de Minas e São Paulo no palácio da Guanabara, inaugurando um novo período na história do Brasil. O Cine Cambuí também viverá uma nova época. 

A firma Bueno e Fanuchi manteve o cinema até 1931, quando foi vendido para o Sr. Francisco Perroni. Perroni foi o único dono do cinema que não foi lembrado naturalmente por nenhum dos depoentes. Isto explica-se no fato dele ter se mudado da cidade há muito tempo. Perroni provinha de Campos do Jordão e montou um clube de Jogos no edifício que existia onde hoje é o Paço Municipal. Havia um piano na sala em frente, que fazia com que músicos se reunissem no local. 

Perroni promoveu uma reforma no cinema, tornando-o higiênico, ou seja, sem pulgas, e trocando os altos bancos que tanto incomodavam os adultos. A inauguração se deu no dia 27 de novembro de 1931, com o filme "Sob o domínio do Palco", com estrondoso sucesso, segundo a ausente reportagem do jornal "O Expositor Municipal".  

Em 1932, após 2 anos de governo “revolucionário”, o país ainda não tinha uma nova constituição. O governo federal nomeou um governador que desagradava ao estado de São Paulo e pronto: começou a revolução de 32. De um lado, paulistas sentindo-se prejudicados e dizendo-se lutar pela constituição. De outro, mineiros aliados ao governo federal dizendo que os paulistas queriam separar-se do Brasil. De quem era a razão? De ambos ou talvez de ninguém. Certo mesmo é que se começou uma guerra que colocava em lados opostos vizinhos e amigos.  

Cambuí, por situar-se próximo a fronteira, não escapou deste conflito surrealista. Nossa pacata cidadezinha foi, inicialmente, invadida por um batalhão constitucionalista. Dias antes, chegara a cidade a notícia de um terrível “ataque aéreo” ocorrido na cidade de Passa Quatro. Eram 3 horas da tarde quando “vermelhinho” paulista fez um vôo rasante sobre nossa praça e, 300 metros acima da igreja, deu uma rajada de metralhadora. Foi aquele corre-corre. Pessoas desmaiavam, corriam gritando pelas ruas da cidade, arrumavam as malas. Não podemos saber se eram balas de verdade ou algum barulho que imitava a realidade. Fato é que os paulistas, além de dispor de pouquíssimos aviões (3 ou 4), não tinham munição em abundância e chegaram a inventar uma traquitana que imitava o som de uma metralhadora somente para impor respeito. 

O resultado foi o esperado. Quando o caminhão do batalhão entrou pelas ruas da cidade, com metralhadoras na carroceria e batedores, a população da cidade já partia para casa de parentes na zona rural. Poucos permaneceram, entre eles o padre Oriolo e dois coroinhas, os irmãos Tatita e Zezito, com 15 e 18 anos respectivamente. Estes dois, que ainda irão participar muito de nossa história, tiraram outra lição deste inusitado episódio e até hoje são apaixonados por aviões como o WACO de duas asas, vermelho, que viram pela primeira vez naquela tarde. 

Tatita, inclusive, na primeira oportunidade foi ao Campo de Marte em São Paulo (justamente a morada do inimigo) acompanhado de seus outros irmãos, Dito e Tonho do Nico, e de lá saíram para um espetacular vôo panorâmico sobre a cidade, às 5 horas da tarde de 8 de março de 1933, apenas 6 meses depois. Cada um fez o seu vôo em um avião também de duas asas, “Neuport”, do Sr. Fritz Hoeler. Tatita encantou-se tanto com o aparelho que, em 1945, tirou seu brevê, na 4ª. Turma de pilotos do Aeroclube de Pouso Alegre. Mais tarde também fundou o Aeroclube de Cambuí, mas isso já é outra história. 

Ainda estamos em 1932 e nossa cidade estava ocupada pelas tropas inimigas, cerca de 50 pessoas. Apesar da presença dos soldados, tudo continuava pacífico e os fuzis ficavam cruzados no meio da praça. O inimigo era educado, em sua maioria estudantes de direito, e tratavam a todos com o devido respeito. Mesmo assim o então prefeito David Bueno mandou um mensageiro para uma cidade vizinha que de lá trasmitiu-lhe um telegrama, obviamente interceptado pelo inimigo. O telegrama informava que um grande contingente de tropas federais estava a caminho de nossa cidade, já encontrando-se na vizinha Pouso Alegre. Claro que tudo era invenção do astuto Sr. David. Em pequeno número e com parcos recursos, o pequeno batalhão recuou até as trincheiras que cavaram no alto do Canguáva e de lá retornaram a seu próprio estado. Dizem até que um dos soldados apressou-se tanto para chegar ao caminhão que quebrou sua perna. Como dizia a piada: Mineiro não perde o trem e nem a guerra. 

Tempos depois chegaram de fato os soldados federais. O 9º. Batalhão de Infantaria aquartelou-se em nossa cidade, sob o comando do Te. Cel. Octávio Diniz. As lembranças deste período não são muito felizes, ficando a impressão de que abusaram um pouco de nossa costumeira hospitalidade. Acredito que não podemos tomar por base os incansáveis elogios feitos pelo Jornal “O Expositor Municipal”, órgão oficial da prefeitura de Cambuí e que, de forma alguma, poderia criticar o comportamento das tropas mineiras no decorrer da guerra. Mesmo assim, podemos sentir que o jornalista era constantemente criticado pelo que escrevia. Um dos adjetivos usados para descrever a digníssima tropa mineira foi: “cria-ruim”. 

Tanto que as coisas não eram exatamente como narra o saudoso jornal é que, por ocasião da visita do Sr. Juarez Távora, o futuro prefeito José Nascimento, então regente da banda, reuniu os músicos e correu para saudá-lo. Iniciou um dobrado em frente ao Grupo Municipal que foi drasticamente interrompido pelo homenageado: “Pare com isso. Estamos em guerra, não em uma festa.” 
 

Vários carros foram confiscados para o esforço da guerra, inclusive a barata do Sr. Perroni, cuja buzina era uma das alegrias das crianças da cidade. Sabendo do confisco, várias pessoas esconderam seus carros na zona rural. De nada adiantou: a delegacia tomou-os a força, como o caminhão bebê que o  sr. João Lopes escondeu na Vargem do Paiol. Até hoje não se tem notícia do paradeiro dos bens confiscados. Aqueles que colaboraram, tiveram seus bens devolvidos ao final da guerra. 

 O batalhão comia diariamente no Hotel Magalhães e, como aquela época a cidade não tinha açougue, todos os dias dois soldados iam até a roça para pegar frangos e leitoas para a sua refeição e, como tudo o que pegaram, jamais pagaram. Como diz Tatita: foram eles que verdadeiramente tomaram a cidade de assalto. 

Passado algum tempo – o conflito durou apenas alguns meses – a revolução acabou sem que um único tiro fosse dado em nossa terra, ao contrário de outros lugares que tem histórias mais dolorosas para contar. Tanto é que, pesquisando a história da revolução de 32, nada consta que tivesse acontecido nesta região do sul de Minas. Nós sabemos que aconteceu. Pode não ter sido muito importante mas aconteceu conosco e isto é importante, ao menos para nós.
 

Com a rendição de São Paulo, Minas comemorou a derrota dos “paulistas”. Os líderes revolucionários tiveram as suas punições e, algum tempo depois, as divergências estavam esquecidas e todos voltaram as suas vidas, restando apenas a dolorosa lembrança dos mortos, de ambos os lados. Nós, felizmente, não temos este tipo de história para contar.  

(Se quiser, clique aqui e leia a íntegra do jornal “O Expositor Municipal” desta época.)
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